Por que repito os mesmos padrões nos relacionamentos?

Ana Clara Valoz rindo diante da estante do consultório

Repetimos padrões porque, lá atrás, aprendemos um jeito de nos vincular que fez sentido naquele momento. Esses aprendizados viram o que a Terapia do Esquema chama de esquemas: formas profundas de sentir e interpretar as relações, que continuam agindo mesmo quando já não nos fazem bem.

Não é falta de força de vontade. São caminhos conhecidos, e o conhecido costuma parecer mais seguro do que o novo.

Talvez você já tenha pensado: "de novo isso?". A pessoa é diferente, o começo é diferente, mas em algum momento você se vê no mesmo lugar: cedendo demais, com medo de ser deixada, sentindo que precisa merecer o afeto ou se afastando quando a relação fica próxima.

O que é um esquema?

A Terapia do Esquema foi criada pelo psicólogo norte-americano Jeffrey Young, a partir da Terapia Cognitivo-Comportamental. Ela parte de uma ideia simples: todos temos necessidades emocionais básicas, como sentir segurança no vínculo, ter autonomia, poder expressar o que sentimos, brincar e ter leveza, e aprender limites saudáveis.

Quando essas necessidades não são bem atendidas na infância e na adolescência, aprendemos a nos adaptar. Essa adaptação vira um esquema: uma lente pela qual passamos a enxergar a nós mesmos e os outros.

Alguns exemplos que costumam aparecer nos relacionamentos:

  • Medo de ser abandonada: a sensação de que as pessoas importantes vão embora, cedo ou tarde (esquema de abandono).
  • Sentir que há algo errado comigo: a crença de que, se alguém me conhecer de verdade, vai deixar de gostar (defectividade e vergonha).
  • Colocar o outro sempre em primeiro lugar: ceder às vontades do outro para evitar conflito (subjugação).
  • Cuidar de todo mundo e não saber receber cuidado (autossacrifício).
  • Sentir que ninguém vai entender o que sinto: a impressão de que o acolhimento não vem (privação emocional).

Esses nomes não são diagnósticos. Servem para dar nome a um padrão, para que ele possa ser observado com mais clareza.

Por que nos sentimos atraídas pelo que machuca?

Muitas vezes, a pessoa que desperta uma atração intensa é aquela que ativa o nosso esquema. Quem tem medo de abandono, por exemplo, pode sentir uma "química" enorme com alguém emocionalmente distante.

Não é que você goste de sofrer. Aquela dinâmica é familiar, e o familiar pode ser sentido como intimidade. Já uma relação estável e disponível pode parecer, no começo, sem graça ou até desconfortável.

Três formas de lidar com um esquema

Quando um esquema é ativado, costumamos reagir de três maneiras, quase sempre sem perceber:

  1. Ceder: agir como se o esquema fosse verdade. Quem acredita que não merece afeto aceita relações em que recebe pouco.
  2. Evitar: fugir do que ativa o esquema. Não se envolver, não se mostrar, não pedir.
  3. Compensar: fazer o oposto, de forma exagerada. Quem tem medo de ser controlada pode querer controlar tudo e todos.

As três protegem no curto prazo e mantêm o padrão no longo prazo. Por isso, mesmo sabendo o que deveria fazer, a gente repete.

Como a terapia ajuda a sair do piloto automático

Entender o padrão é o primeiro passo, mas costuma não bastar. Na Terapia do Esquema, o trabalho acontece em algumas frentes:

  • Reconhecer o esquema no momento em que ele aparece, e não só depois.
  • Entender de onde ele veio, olhando para a história de vida sem culpar ninguém, mas sem minimizar o que faltou.
  • Diferenciar passado e presente: o que foi necessário para se proteger antes nem sempre é necessário agora.
  • Experimentar novas respostas, primeiro no espaço seguro da terapia e depois nas relações.

A proposta não é apagar a sua história, e sim construir relações e escolhas mais coerentes com quem você é hoje.

Perguntas para começar a observar

Se este texto fez sentido para você, responda com calma e sem julgamento:

  • O que se repete nas minhas relações, independentemente da pessoa?
  • Em que momento costumo me sentir insegura, invisível ou sobrecarregada?
  • O que eu faço quando isso acontece?
  • De onde eu conheço essa sensação?

Essas perguntas não substituem um processo terapêutico, mas ajudam a trocar o "de novo isso?" por "o que isso está me mostrando?".

Se conhecer não é só entender por que você é como é. É também aprender a escolher diferente.

Este texto tem caráter informativo e não substitui o acompanhamento psicológico.

Quer olhar para isso com calma?

A terapia é um espaço para entender a sua história e aprender a escolher diferente.

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