Repetimos padrões porque, lá atrás, aprendemos um jeito de nos vincular que fez sentido naquele momento. Esses aprendizados viram o que a Terapia do Esquema chama de esquemas: formas profundas de sentir e interpretar as relações, que continuam agindo mesmo quando já não nos fazem bem.
Não é falta de força de vontade. São caminhos conhecidos, e o conhecido costuma parecer mais seguro do que o novo.
Talvez você já tenha pensado: "de novo isso?". A pessoa é diferente, o começo é diferente, mas em algum momento você se vê no mesmo lugar: cedendo demais, com medo de ser deixada, sentindo que precisa merecer o afeto ou se afastando quando a relação fica próxima.
O que é um esquema?
A Terapia do Esquema foi criada pelo psicólogo norte-americano Jeffrey Young, a partir da Terapia Cognitivo-Comportamental. Ela parte de uma ideia simples: todos temos necessidades emocionais básicas, como sentir segurança no vínculo, ter autonomia, poder expressar o que sentimos, brincar e ter leveza, e aprender limites saudáveis.
Quando essas necessidades não são bem atendidas na infância e na adolescência, aprendemos a nos adaptar. Essa adaptação vira um esquema: uma lente pela qual passamos a enxergar a nós mesmos e os outros.
Alguns exemplos que costumam aparecer nos relacionamentos:
- Medo de ser abandonada: a sensação de que as pessoas importantes vão embora, cedo ou tarde (esquema de abandono).
- Sentir que há algo errado comigo: a crença de que, se alguém me conhecer de verdade, vai deixar de gostar (defectividade e vergonha).
- Colocar o outro sempre em primeiro lugar: ceder às vontades do outro para evitar conflito (subjugação).
- Cuidar de todo mundo e não saber receber cuidado (autossacrifício).
- Sentir que ninguém vai entender o que sinto: a impressão de que o acolhimento não vem (privação emocional).
Esses nomes não são diagnósticos. Servem para dar nome a um padrão, para que ele possa ser observado com mais clareza.
Por que nos sentimos atraídas pelo que machuca?
Muitas vezes, a pessoa que desperta uma atração intensa é aquela que ativa o nosso esquema. Quem tem medo de abandono, por exemplo, pode sentir uma "química" enorme com alguém emocionalmente distante.
Não é que você goste de sofrer. Aquela dinâmica é familiar, e o familiar pode ser sentido como intimidade. Já uma relação estável e disponível pode parecer, no começo, sem graça ou até desconfortável.
Três formas de lidar com um esquema
Quando um esquema é ativado, costumamos reagir de três maneiras, quase sempre sem perceber:
- Ceder: agir como se o esquema fosse verdade. Quem acredita que não merece afeto aceita relações em que recebe pouco.
- Evitar: fugir do que ativa o esquema. Não se envolver, não se mostrar, não pedir.
- Compensar: fazer o oposto, de forma exagerada. Quem tem medo de ser controlada pode querer controlar tudo e todos.
As três protegem no curto prazo e mantêm o padrão no longo prazo. Por isso, mesmo sabendo o que deveria fazer, a gente repete.
Como a terapia ajuda a sair do piloto automático
Entender o padrão é o primeiro passo, mas costuma não bastar. Na Terapia do Esquema, o trabalho acontece em algumas frentes:
- Reconhecer o esquema no momento em que ele aparece, e não só depois.
- Entender de onde ele veio, olhando para a história de vida sem culpar ninguém, mas sem minimizar o que faltou.
- Diferenciar passado e presente: o que foi necessário para se proteger antes nem sempre é necessário agora.
- Experimentar novas respostas, primeiro no espaço seguro da terapia e depois nas relações.
A proposta não é apagar a sua história, e sim construir relações e escolhas mais coerentes com quem você é hoje.
Perguntas para começar a observar
Se este texto fez sentido para você, responda com calma e sem julgamento:
- O que se repete nas minhas relações, independentemente da pessoa?
- Em que momento costumo me sentir insegura, invisível ou sobrecarregada?
- O que eu faço quando isso acontece?
- De onde eu conheço essa sensação?
Essas perguntas não substituem um processo terapêutico, mas ajudam a trocar o "de novo isso?" por "o que isso está me mostrando?".
Se conhecer não é só entender por que você é como é. É também aprender a escolher diferente.
Este texto tem caráter informativo e não substitui o acompanhamento psicológico.